terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O último passageiro





A noite estava um breu quando deixei o pub. Trabalhar ali não era nada agradável; o cheiro de bebida me embrulhava o estômago. Mal via a hora de chegar em casa, comer àquela comida fria e sem gosto e cair na cama para descansar o espírito até o dia seguinte, quando começaria tudo outra vez. Adentrei às ruas escuras de Londres, uma cidade cinzenta e sem graça. O frio da noite arrepiava os meus cabelos; ascendi um cigarro para tentar aquecer o corpo e continuei minha caminhada em direção à plataforma de metrô.

O relógio marcava uma da madrugada; sentei-me ali, sozinho, para esperar o próximo metrô quando surgiram passos que ecoavam por toda a plataforma.Era ela: a mesma mulher que poucas horas atrás me olhava lá no pub. Seus longos cabelos escuros brilhavam à luz na plataforma; os olhos muito azuis, maquiados de preto, fixos em mim me davam medo. Ela veio se aproximando lentamente e me deu um sorriso, sem alegria ou sentimento, apenas um sorriso vazio. Sentou-se ao meu lado e disse com uma voz doce:

- Olá Jonny? Como está passando?

A principio fiquei assustado. Como aquela estranha me conhecia? Me acalmei e respondi com outra pergunta:

- Como sabe meu nome se eu nunca te vi antes.

Ela me olhou demoradamente e respondeu:

- Eu sei muitas coisas sobre você. Muitas coisas...

De repente um frio me percorreu a espinha; todos os pêlos de meu corpo se arrepiaram, me dando uma sensação de medo. Tentei levantar do banco. Não consegui. Parecia que estava grudado ali.

- Não adianta fugir. Dessa vez não...

- Você deve ter me confundido com outra pessoa. Eu não te conheço - argumentei.

Ela levantou-se e me disse:

- Pois vou me apresentar: tenho muitos nomes, mas você pode me chamar de Luci. Posso esta em vários lugares ao mesmo tempo... Sabes quem sou agora?

Mais uma vez fiquei sem reação. Ela só podia está brincando comigo. Levantei-me abruptamente e sai andando.

- Você não pode fugir - me disse ela, bem ali na minha frente. Mas como, se ela tinha ficado no banco?

Meu coração bateu acelerado; o medo invadiu todo o meu corpo e o ar chegou a faltar no ambiente. Derrepente ela começou a falar em uma língua estranha, em latim, eu acho. E ao mesmo tempo ria de mim. Em estantes ela ficou séria e voltou a falar em inglês:

- Você tem uma coisa que me pertence e chegou a hora de me devolver.

As lâmpadas começaram a falhar; o silencio tornou-se desesperador diante do medo que eu sentia naquele momento. Àquela mulher me deixava sem ação, como se prendesse meu corpo. Fiquei desesperado.

- Você é meu desde que nasceu. Inclusive, fui eu que lhe concedi a vida. Graças a sua infeliz mãezinha, que não engravidava nunca. Agora vim buscar sua alma de volta.

Aquela palavra foi como se despencasse em meu estômago uma enorme pedra de gelo. Fiquei frio de tanto pavor; já não consegui nem falar. Ela circulou em minha volta, observando cada gesto que eu fazia, me analisando. Era como se estivesse se divertindo com meu medo. Tentei falar algo mais nada saia de minha boca. Foi quando ela falou:

- Você não sai perdendo nada. Com essa vida miserável que você leva, não sei como aguenta. Vou lhe fazer uma proposta - ela disse isso com aquele sorriso sem emoção - vou lhe dar mais um ano de sofrimento. Mas só um ano a mais. Nesse mesmo dia, ano que vem eu estarei de volta.

E me apontando o dedo fino acrescentou:

- E não tente nenhuma gracinha.

Nesse instante o metrô vinha se aproximando, fazendo balançar toda a plataforma. Em um piscar de olhos ela havia sumido, deixando apenas um forte cheiro de enxofre no ambiente. O metrô parou e eu adentrei. Em alguns momentos achei que tivera um sonho, mas meu corpo ainda tremia de pavor. Não sei nem como consegui chegar em casa, estava totalmente fora de mim.

Hoje, exatamente um ano depois, estou aqui trancado em casa com medo do que pode vir a me acontecer. Àquelas palavras ainda ecoam em minha mente todas as noites. Minha vida nunca mais foi a mesma. Tentei até o suicídio, mas nada funcionou. Só me resta esperar. E eu sei que ela vem. Hoje ela vem. E eu estou pronto. Seja o que o Diabo quiser.

Um comentário:

Sixx Stardust disse...

Olá Fєrnαndєz
Prefiro não acreditar nesse tipo de circunstância que dá poderes ao demônio de levar a alma de alguém. Não me parece o tipo de coisa que se possa barganhar, Deus-pessoa-demônio não tem propriedade por inteiro. Teria um valor mais simbólico que concreto.

abraços

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